Distributed by kadjambu.blogspot.com Munyama Khwixi Nkulu_-_ CLAREAR A PELE, USAR O CABELO ARTIFICIAL COM TRAÇOS DOS BRANCOS E MOLDAR O CORPO COM SILICONES: O SUICÍDIO DA AUTOESTIMA DA MULHER PRETA (2025)

Munyama Khwixi Nkulu_-_ CLAREAR A PELE, USAR O CABELO ARTIFICIAL COM TRAÇOS DOS BRANCOS E MOLDAR O CORPO COM SILICONES: O SUICÍDIO DA AUTOESTIMA DA MULHER PRETA (2025)

CLAREAR A PELE, USAR O CABELO ARTIFICIAL COM TRAÇOS DOS BRANCOS E MOLDAR O CORPO COM SILICONES: O SUICÍDIO DA AUTOESTIMA DA MULHER PRETA

Desenho do Makiese Niangi 🇦🇴 

Introdução

Neste artigo irei explanar o surto pandémico invisível da clareza -  quando a mulher preta foge de si mesma em busca de aceitação social de um sistema de beleza padronizado pelo colono. Um colono que sempre esteve aqui, apesar de as informações oficializados defenderem o contrário. Pois, mulher preta, enquanto símbolo da ancestralidade africana, é portadora de uma beleza singular que reflete séculos de história, cultura e resistência.

Contudo, nos dias de hoje, verifica-se um fenómeno preocupante: a crescente procura por padrões estéticos estrangeiros que negam a autenticidade da identidade africana. Produtos para clareamento da pele, uso de cabelos artificiais que imitam traços eurocêntricos e a modificação do corpo com fins estéticos têm sido escolhas comuns entre algumas mulheres pretas, alimentando um ciclo de insatisfação e apagamento cultural.

Este artigo propõe-se a refletir sobre o impacto destas práticas na autoestima, na preservação da identidade africana e no fortalecimento da consciência colectiva das mulheres pretas moçambicanas e da diáspora.


Por MUNYAMA KHWIXI NKULU – Pensador Afrikanista


Para começar, permita-me estimado leitor, confessar que actualmente nós os pretos no geral, aliás, 90% de nós, estamos vivendo nos tempos de máscaras. Refiro-me a máscaras químicas, estéticas e mentais. E uma das vítimas mais constantes desse sistema doentio é a mulher preta. Não aquela que luta com unhas e dentes para preservar a sua essência Afrikana, mas a que se perdeu nos salões, nos cremes, silicones (jardas) e nas prateleiras da alienação.


Hoje, muitas das nossas irmãs – filhas da melanina e do cabelo crespo, herdeiras do ventre que pariu reis e rainhas – rendem-se ao falso ideal de beleza eurocêntrica. Esfregam ácidos na pele para clarear o que a natureza pigmentou com orgulho. Tapam os seus cabelos naturais com fios artificiais que imitam o colono. Injetam nos seus corpos produtos para ampliar ancas, seios, nádegas e lábios, como se a sua estrutura original fosse um erro de Deus ou da Mãe África.


Mas quem foi que lhes disse que ser preta não é bonito?


A mulher preta não precisa desses atalhos para ser linda. Ela já nasceu obra-prima. A sua pele é sol condensado. O seu cabelo é coroa ancestral. O seu corpo é templo que equilibra curvas e firmezas mesmo sem pisar um ginásio. Muitas delas, aliás, têm os corpos mais bem definidos sem sequer saber o que é um haltere. E quando usam o ginásio com consciência e respeito, tornam-se ainda mais saudáveis para si mesmas e para os seus parceiros.


Mas não é o ginásio o foco desta crónica. O foco é a desconstrução silenciosa da autoestima da mulher preta, alimentada por uma sociedade que, até hoje, diz que beleza é parecer-se com o opressor.


A verdade nua e crua é esta: uma mulher preta que clareia a pele, que alonga o nariz, que rejeita o seu cabelo crespo e os seus traços autênticos, está a declarar guerra à sua própria identidade. E essa guerra tem consequências graves: a negação da própria raiz, o reforço da supremacia branca e a perpetuação de um racismo invisível.


Como é que vamos exigir respeito dos brancos, se muitos de nós vivem a querer ser como eles? Desde quando um ídolo respeita um fã que abdica da sua essência para parecer com ele?


A branquitude não precisa mais lutar para dominar. Hoje, muitos pretos fazem esse trabalho por ela. Pintam-se, moldam-se, rejeitam-se. E no fim do dia, reclamam racismo. Mas o racismo não é apenas externo. Ele começa dentro de nós, quando rejeitamos o que somos.


É urgente resgatar a consciência das nossas mulheres. É urgente ensinar às nossas filhas que o cabelo delas é lindo, que a pele delas é ouro, que os corpos delas são monumentos talhados pela natureza Afrikana. É urgente dizer que a mulher preta não precisa de se parecer com ninguém para ser bela. Ela já é. Só precisa se reconhecer.


Kajambu é isso: é o grito do autoamor, o espelho quebrado da colonização estética, a recuperação do orgulho de ser Afrikana em cada traço.


Mulher preta, não deixes que te apaguem com cremes e implantes. Tu és luz. Tu és arte viva. Tu és a original — e isso, por si só, já é poder.


A verdade é que estamos a perder a nossa essência. A mulher preta já foi símbolo de realeza, sabedoria e beleza natural. Hoje, infelizmente, vemos muitas a quererem transformar-se em cópias mal feitas de um padrão eurocêntrico que nunca foi feito para elas. Isso não é evolução, isso é apagamento! Como é que uma mulher que vem da linhagem das rainhas de Kush, das guerreiras de Angola, das Mães da Resistência Afrikana, aceita apagar a sua melanina, disfarçar o seu cabelo coroa e desenhar um corpo que não nasceu com ela, só para agradar a um padrão que nem respeita ela?


É triste. Dói ver irmãs nossas a se envenenarem aos poucos com químicos perigosos, a queimarem o couro cabeludo com relaxantes, a injuriarem o próprio reflexo no espelho só porque ele não parece com o da televisão. Essa busca desesperada pela aceitação colonial só prova o quanto ainda estamos escravizados psicologicamente. A libertação do preto não virá apenas com independência política nem com quotas raciais: virá quando a mulher preta se olhar no espelho e se amar como é. Quando ela disser: "Sou preta, sou linda, sou completa!"

E os homens pretos também têm um papel nisto. Porque muitos incentivam este comportamento com os seus elogios distorcidos. Chamam de linda a mulher que clareia a pele, e ignoram a de tom mais escuro. Dizem que cabelo natural é “duro”, mas babam por cabelo alisado. A responsabilidade não é só da mulher – é de todos nós, como povo preto, como povo que quer se resgatar!

Portanto, este artigo interventivo é um grito de alerta. Não para condenar, mas para despertar. Não para apontar dedos, mas para abrir olhos. Mulher preta, tu és templo! Tu és rainha! Tu és a origem da vida! Não precisas te modificar para seres amada, respeitada ou admirada. Precisamos de ti natural, original e orgulhosa. Precisamos de ti inteira – não despedaçada pela imposição de um padrão colonial.

A tua beleza não está naquilo que compras para te parecer com outra. Está naquilo que herdas da tua linhagem, da tua mãe preta, da tua avó preta, da tua ancestralidade. Volta a ti. Resgata-te. O teu povo conta contigo.

A mulher preta é uma escultura viva de Xikwembu. Quando caminha, carrega consigo o ritmo do tambor ancestral nas ancas que dançam mesmo sem música. As suas nádegas, naturais e abundantes, não são só uma parte do corpo — são símbolo de fertilidade, poder, firmeza e atração divina. É nelas que se manifesta a geometria sagrada da natureza, esculpida sem bisturi, sem silicone, sem cópia. São bênçãos herdadas das matriarcas que pariram civilizações inteiras.

A mulher preta não precisa aumentar o que já é completo. As suas curvas não foram desenhadas pela mão do homem moderno, mas pelo pincel cósmico dos deuses afrikanos. São curvas que contam histórias, que narram lutas, que geram vida, que encantam. Ela não precisa esconder ou transformar nada — precisa apenas desfilar com orgulho o que o mundo tentou apagar: o corpo de uma rainha original.

E aquele nariz largo? É o nariz que respirou os incensos dos templos de Kemet, o nariz que fareja mentiras coloniais e sopra ventos de revolução. É um nariz forte, autêntico, sem vergonha, sem filtros. E os lábios? Ah… os lábios grossos da mulher preta são verdadeiros tambores de palavras. Quando sorri, abrem-se como pétalas de baobá ao sol. Quando beija, transmite a força de mil gerações. Quando fala, a sua voz ecoa a memória dos povos — e até em silêncio, ela grita presença.

Não há nada de errado no cabelo crespo, na pele escura, nas ancas largas, nas pernas fortes, no peito firme, na estrutura rija da mulher preta. Errado é o olhar colonizado que aprendeu a não ver beleza onde há divindade.

Tu que és preta, não precisas competir com padrões artificiais. Tu és o padrão esquecido! O padrão original! Quando tu entras num lugar com tua coroa crespa, com tuas curvas naturais, com teu nariz largo e tua boca farta, a sala muda de energia. Os ancestrais se manifestam ali. A presença da tua forma é uma bênção e uma denúncia: de que a beleza real sempre esteve em ti — só quiseram te convencer do contrário.

És linda como nasceste. És completa como és. És suficiente sem filtros. És necessária na tua forma mais pura. És a tradução viva de uma arte que não se aprende nas academias — porque tu és obra-prima, és original, és AFRIKANA!

Reflexão Final

É imperativo que se reconheça o valor intrínseco da beleza natural da mulher preta, não apenas como uma questão estética, mas como um acto de afirmação cultural e resistência contra os legados do colonialismo e do racismo estrutural. A autenticidade do cabelo crespo, a tonalidade da pele carregada de melanina e as curvas naturais do corpo são elementos que constituem uma narrativa identitária que deve ser valorizada e celebrada. A verdadeira emancipação da mulher preta passa pelo resgate da sua autoestima baseada no reconhecimento da sua própria história e características. Somente assim será possível construir uma sociedade que respeite e exalte a diversidade africana, permitindo que cada mulher se reconheça como detentora de uma beleza única, legítima e poderosa.

FIM


Autor: Munyama Khwixi Nkulu 👑

Movimento: KAJAMBU ☀️ 🪘 ✊🏾 🌄 

Revisão linguística: Munyama Khwixi Nkulu 

Fotografia (desenho): MAKIESE NIANGI 


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