Aruângua é mais do que versos rimados — é uma memória revivida, é denúncia histórica e é também um alerta aos povos originários de Afrika sobre as dinâmicas de invasão, dominação e resistência.
Este poema é uma narrativa simbólica que representa, de forma poética, o avanço colonial pelo território afrikano, mascarado de estratégia, mas sustentado pela violência. A personagem "Paiva" representa o invasor, o explorador, o estrangeiro que usa da ciência e da geopolítica para justificar a pilhagem. Já o “Aruângua” – rio sagrado – torna-se a via de passagem entre o sagrado e o profano, entre o espaço ancestral e o projeto de destruição.
Abaixo vamos à leitura do poema: 👇🏾
Aruângua
Um caminho
Que levou-lhes direto ao centro
Com o Paiva no cantinho
A frota chegou no epicentro
Era preciso passar pelo Aruângua
Para chegar no lugar estratégico
Então, através daquela água
O Paiva fez um estudo geoestratégico
E concluiu que Aruângua deságua no Índico
E porta de entrada para o centro é a sua foz
E o centro permitiria a posse dos que estão longe do Índico
E o Paiva pretendia dominá-los de forma feroz
Após aprovar-se a sua ideia maligna
Foi-lhe dada a ordem
De dominar a terra que não lhe é digna
E, de seguida, obedecer à primeira subordem…
E obedeceu
Pôs-se no mar
Com olhos virados para o céu
Na esperança de que nada possa lhe abalar
Já chegado na foz
Estremeceram os neurônios no seu interior
Era uma voz
Lhe dizendo para aguardar no exterior
O exterior era o Bângoé
Um local capaz de abrigar grandes embarcações
Ali esperou a hora certa
Para atacar as sagradas nações
Autor: DZUWA Yathu 🌞
Revisão linguística: Munyama Khwixi Nkulu
Movimento Revolucionário : KAJAMBU (sedeado em Moçambique 🇲🇿).
Reflexão Final
Aruângua é o espelho de muitos rios afrikanos que testemunharam o avanço da brutalidade colonial. Este poema carrega símbolos de resistência espiritual, cultural e territorial. O rio representa a linha entre o mundo ancestral e a invasão; o “centro” representa a riqueza espiritual e material da terra afrikana, e o “Paiva” é todo invasor que, ontem como hoje, tenta se apossar do que não é seu.
Este texto é um chamado à consciência do nosso povo. É um lembrete de que os nossos caminhos, rios, montanhas e tradições foram traçados com sangue, mas também com dignidade. Cabe-nos, hoje, resgatar esse passado para garantir um futuro onde Afrika pertença, de fato, aos seus filhos.


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